17 maio 2010

Flying Dog Brewery



A cervejaria Flying Dog é conhecida pela extrema irreverência contida em seus rótulos, nas descrições de suas cervejas e também do líquido em si. Esta irreverência surgiu a partir da filosofia Gonzo, o estilo de jornalismo extravagante e excêntrico feito por Hunter Thompson, antigo amigo dos fundadores da Flying Dog.

O nome da cervejaria surgiu a partir de uma ilustração de um cachorro voador que George Stranahan viu em 1983 durante uma desatrada expedição com um grupo de amigos para subir ao pico do K2, no Himalaia. A cervejaria surgiu como um brewpub na cidade de Aspen (Colorado) em 1990, em uma parceiria entre George e seu sócio Richard McIntyre.

Hunter Thompson, o jornalista, apresentou o ilustrador Ralph Steadman, também seguidor da filosofia Gonzo, aos donos da Flying Dog. A partir daí Ralph passou a desenhar os rótulos das cervejas, tudo se tornou mais excêntrico e a cervejaria cresceu. Hoje a Flying Dog está na cidade de Frederick, em Maryland, já que o antigo brewpub não poderia dar conta da demanda pelas cervejas.

Dentro da estratégia de importar cervejas da terra do Tio Sam para o Brasil, a Importadora Tarantino trouxe 10 exemplares diferentes da cervejaria Flying Dog somente algumas semanas após nos presentear com a chegada das cervejas da Anderson Valley.  Todas estão descritas a seguir, a não ser a Kerberos Tripel (Canis Major). As 6 primeiras cervejas são da linha regular, que tem a tampinha azul, e as 3 últimas são da linha Canis Major, mais elaborada e extrema, que vem com a tampinha roxa.

A cervejaria informa o IBU (International Bitterness Units - Unidades Internacionais de Amargor) de cada cerveja no rótulo, o que é bastante comum em cervejaria americanas dado o espírito lupulomaníaco deles.


In-Heat Wheat Hefeweizen - Hefeweizen, Ale, 4.7%ABV, garrafa 355ml, IBU 12.

Cor: Âmbar, turva.
Espuma: Altíssima formação, média duração, cor branca, bolhas grandes.
Aroma: Malte, mel, frutado (banana), cítrico, cravo.
Paladar: Malte, doce, mel, frutado (banana), cítrico, cravo, amargor final, corpo leve, altíssima carbonatação.

Estava esperando uma American Hefeweizen, mas encontrei uma típica German Hefeweizen, com bastante frutado (banana), fenólico (cravo) e citricidade. O corpo é leve e contribui para uma cerveja bem refrescante.


Tire Bite Golden Ale - Kolsch, Ale, 5%ABV, garrafa 355ml, IBU 16.5
Cor: Dourada, límpida.
Espuma: Média/baixa formação, baixa duração, cor branca.
Aroma: Malte, leve frutado (abacaxi, limão), lúpulo, cítrico, leve herbáceo.
Paladar: Malte, doce, cítrico, frutado (abacaxi, limão), lúpulo, leve herbáceo, amargor final de média/baixa intensidade e boa duração, corpo médio/baixo, levemente seca.

Cerveja bem leve, com um perfil de malte bem simples. O lúpulo está presente com notas cítricas e herbáceas. Há um frutado bem leve, lembrando abacaxi e limão.


Old Scratch Amber Lager - American Amber/Red Lager, 5.5%ABV, garrafa 355ml, IBU 19.5

Cor: Cobre, límpida.
Espuma: Boa formação e duração, cor bege clara, boa consistência.
Aroma: Malte, caramelo, doce, torrefação, lúpulo (hebáceo).
Paladar: Malte, caramelo, doce, torrefação, lúpulo, amargor final de boa intensidade e duração, acompanhado de torrefação, corpo médio, seca.

Boa cerveja. Muito malte com toques de caramelo e leve torrefação. O conjunto é bem equilibrado e fácil de beber. O lúpulo aparece bem no aroma com notas berbáceas (não tão complexas como esperamos em cervejas americanas) e no sabor com um amargor de boa intensidade, equilibrado pela boa presença de malte.


Doggie Style Classic Pale Ale - American Pale Ale, 5.5%ABV, garrafa 355ml, IBU35.

Cor: Cobre, límpida.
Espuma: Boa formação, média duração, cor marfim, boa consistência, deixa marcas no copo.
Aroma: Lúpulo, adocicado, malte, caramelo, frutado (maracujá, limão, laranja), cítrico, herbáceo.
Paladar: Malte, doce, caramelo, lúpulo, frutado (maracujá, laranja, grapefruit), cítrico, corpo médio/leve, amargor final de média intensidade e boa duração.

Deliciosa. Uma cerveja bem fácil, de alto drinkability. Ideal para beber nos dia quentes e em maior quantidade. Já começa com um delicioso aroma de lúpulo muito fresco lembrando frutas cítricas em geral e principalmente maracujá, além de notas herbáceas e florais. No sabor o malte está bem presente para dar harmonia ao conjunto e sustentar o bom amargor que vem ao final de cada gole, com muito sabor de lúpulo também. Entre todas as Flying Dog que se propõem a ter uma lupulagem destacada, esta é a que tem o conjunto mais equilibrado.


Road Dog Porter - American Porter, Ale, 6%ABV, garrafa 355ml, IBU 31.
Cor: Marrom, límpida.
Espuma: Boa formação e duração, cor bege, boa consistência, deixa marcas no copo.
Aroma: Malte, adocicado, torrefação, café, leve chocolate.
Paladar: Malte, doce, torrefação, café, lúpulo, amargor final de média intensidade e duração, acompanhado de torrefação, corpo médio/baixo, alta carbonatação, seca.

Cerveja fácil mas sem grandes destaques. A cor é bem clara para uma porter. Também é mais lupulada e tem menos corpo que outras cervejas do estilo.


Snake Dog IPA - American India Pale Ale, 7.1%ABV, garrafa 355ml, IBU 60.

Cor: Cobre clara, límpida.
Espuma: Alta formação e duração, cor gebe amarelada, bem consistente, deixa muitas marcas no copo.
Aroma: Lúpulo (muito fresco), frutado (tangerina, grapefruit), cítrico, herbáceo, pinheiros, malte, caramelo, leve torrefação.
Paladar: Malte, adocicado, torrefação, lúpulo, frutado (tangerina, grapefruit), cítrico, herbáceo, pinheiros, álcool, amargor final de alta intensidade e duração, persistente, corpo médio, seca.

Ótima cerveja. O lúpulo é o personagem principal com todas as notas possíveis de se extrair a partir de variedades americanas: cítrico, frutado (tagerina, grapefruit), herbáceo e pinheiros. Também existe malte para equilibrar o conjunto. A cerveja não fica exatamente equilibrada. Na realidade ela não é equilibrada, é amarga mesmo, mas acredito que essa seja a proposta. Pode desagradar àqueles que não gostam de amargor intenso. Eu adoro lúpulo e amargor e por isso sou suspeito.


Double Dog Double Pale Ale - Imperial India Pale Ale, 11.5%ABV, garrafa 355ml, IBU 85.

Cor: Cobre, límpida.
Espuma: Alta formação e duração, cor bege amarelada, bem consistente, deixa muitas marcas no copo.
Aroma: Lúpulo, cítrico, frutado (grapefruit, laranja, limão), malte, caramelo, leve torrefação, álcool, herbáceo, picante.
Paladar: Malte, doce, caramelo, toffee, leve torrefação, lúpulo, cítrico, frutado (grapefruit, laranja), herbáceo, picante, álcool, amargor final de alta intensidade e duração, bom corpo, bem seca, licorosa.

Boa cerveja. Lupulada ao extremo. Pode ser considerada como um exagero na receita da Snake Dog IPA. Existe uma boa quantidade de malte, doçura e álcool aqui para sustentar tanto lúpulo, mas mesmno assim ele aparece com notas iniciais predominantemente frutadas de grapefruit, laranja e leve limão. Depois as notas ficam mais herbáceas e picantes. O álcool aparece bem e ajuda a dar corpo à cerveja, mas mesmo assim, em momento algum parecer ter os 11.5% ABV declarados. Cerveja perigosa! Desbalanceada, extrema, assustadora para os iniciantes, mas surpreendente e muito boa!


Horn Dog Barley Wine - Barley Wine, Ale, 10.2%ABV, garrafa 355ml, IBU 45.

Cor: Cobre intensa, límpida.
Espuma: Boa formação e média duração, cor bege amarelada, bem consistente, deixa muitas marcas no copo.
Aroma: Malte, doce, caramelo, toffee, melaço, frutado (cerejas, passas), lúpulo, amadeirado, vinho do porto, álcool.
Paladar: Malte, doce, caramelo, toffee, melaço, frutado (cerejas, passas), lúpulo, picante, álcool, amadeirado, vinho do porto, amargor final de boa intensiddae e duração, bom corpo, textura densa.

Ótima cerveja. Uma das minha preferidas. Muito intensa e complexa. Possui um bom equilíbrio entre malte e lúpulo e fico até mesmo em dúvida na classificação como English ou American Barley Wine. O malte acaba predominando no final, com intensas notas de caramelo, toffee e melaço. O álcool aparece tembém com grande destaque e contribui de alguma forma para a percepção de um toque picante e de vinho do porto. Existe um frutado delicioso que lembra cerejas e passas. A cervejaria sugere a guarda desta cerveja e coloca o ano de fabrbicação nos rótulos para facilitar a vida de nós que gostamos de organizar a adega de cerveja. Esta aqui era de 2009. Vou deixar outras guardadas para testar!


Gonzo Imperial Porter - Porter, Ale, 7.8%ABV, garrafa 355ml, IBU 85.

Cor: Preta opaca.
Espuma: Média formação, média/baixa duração, cor bege escura, bem consistente, deixa marcas no copo.
Aroma: Lúpulo, herbáceo, cítrico, malte, torrefação, café, chocolate, álcool.
Paladar: Malte, torrefação, queimado, café, chocolate, acidez, amadeirado, lúpulo, herbáceo, picante, álcool, amargor final de grande intensidade e duração, bom corpo, seca.

Boa cerveja. Esta é o exagero na receita da Road Dog Porter, por isso a descrição de Imperial Porter no rótulo, apesar de que a classificação dela pode ser um tanto quanto complicada (Imperial Stout, Porter?). A sensação de torrefação é a mais presente e chega a ser quase que de queimado, trazendo notas de café e chocolate, além de alguma acidez ao conjunto. O lúpulo é facilmente perceptível logo no início ao sentir o aroma e tem notas herbáceas e algo de cítrico. O álcool também aparece bem, mas o conjunto superlativo em tudo (torrefação, lúpulo, malte e álcool) acaba ficando bem equilibrado no final. Não parece ter os 85 IBU.

06 maio 2010

Anderson Valley Brewing Company - As primeiras cervejas americanas no Brasil




Depois que alguns brasileiros tiveram oportunidade de provar algumas cervejas produzidas por microcervejarias americanas e divulgaram suas experiências por aqui, criou-se uma grande expectativa pela chegada dessas cervejas no mercado brasileiro. A importadora Tarantino foi a primeira a anunciar a importação de cervejas americanas, entre elas Anderson Valley, Flying Dog e Rogue. 

As primeiras a aparecerem por aqui foram as cervejas da Anderson Valley, ainda nos primeiros dias desse ano. Esta cervejaria californiana fica na cidade de Boonville e teve o início das atividades de forma bem pequena como um brewpub. Kenneth Allen é homem por trás dessa cervejaria. Ele trabalhou durante mais de vinte anos como quiroprático, sendo até mesmo o presidente da Associação doa Quiropráticos da Califórnia. Em 1980 ele se mudou para Boonville, no Anderson Valley (Anderson é o descobridor do vale, em 1851 durante uma caçada). Allen comprou um lote de terras no centro da cidade para montar sua clínica. Depois ele descobriu que se tornou dono de uma das melhores fontes de água natural de Anderson Valley. Ao pensar no que fazer com esta fonte de água, ele decidiu fabricar cervejas.

Duas curiosidades das cervejas da Anderson Valley são seu mascote e os nomes das cervejas no idioma local. A cidade de Boonvile sempre foi muito isolada geograficamente e por esse motivo até mesmo uma língua foi criada, o Boontling, com cerca de 1300 palavras e frases. O mascote da cervejaria é um esquisitíssimo urso com chifres, o Barkley. Mas segundo a cervejaria este não é um bear (urso em inglês) mas um Beer (cerveja em inglês), mistura das palavras bear e deer, que significam urso e cervo respectivamente. Um trocadilho bem criativo!

Nesta época em que responsabilidade ambiental virou moda, eles utilizam de certas saídas para diminuir o impacto ambiental na produção das cervejas, como o uso de painéis solares para captar energia e a  reciclagem de tudo o que for possível (papel, vidro, aço, plástico, papelão, jornal). O malte e o lúpulo usados nas receitas são posteriormente doados para os fazendeiros alimentarem os animais e o fermento serve para fertilização das plantações. Além disso, a cervejaria ainda possui um carro elétrico para, junto com veículos puxados por cavalos, realizar as entregas locais. No site, também é possível comprar equipamentos usados para reutilização em novas cervejarias.

As cervejas que chegaram no Brasil foram: Poleeko Gold Pale Ale, Boont Amber Ale, High Rollers Wheat Beer, Boont ESB, Hop Ottin India Pale Ale e Barney Flats Oatmeal Stout.


Polekoo Gold Pale Ale - American Pale Ale, 5.46%ABV, garrafa 355ml.

Cor: Âmbar clara, levíssima turbidez.
Espuma: Boa formação e duração, cor marfim clara, boa consistência, deixa marcas no sopo.
Aroma: Lúpulo, cítrico, frutado (grapefruit, laranja), floral, malte, mel, leve adocicado.
Paladar: Malte, leve adocicado, mel, lúpulo, cítrico, frutado (grapefruit, laranja), bom amargor final de boa intensidade e duração, corpo médio/leve, levemente seca.

Ótima cerveja. Leve e fácil de beber. Tem malte perceptível no conjunto, com nuances adocicadas e de mel. Existe também uma ótima presença de lúpulo tanto no aroma quanto no sabor, com clara influência das variedades americanas (Cascade, principalmente), que puxam intensas notas cítricas, florais e de pinheiros
Poleeko Gold era o nome em Boontling para a cidade de Philo, localizada a cerca de 6 milhas da cervejaria


 Boont Amber Ale - American Amber/Red Ale, 5.8%ABV, garrafa 355ml.

Cor: Cobre escura, leve trubidez.
Espuma: Média formação e duração de espuma, de cor bege.
Aroma: Malte, adocicado, caramelo, toffee, frutos secos (castanhas, nozes), leve lúpulo.
Paladar: Malte, doce, caramelo, toffee, leve torrefação, frutos secos (castanhas, nozes), leve álcool, leve picante, amargor final de média intensidade e boa duração, corpo médio, seca.

Boa cerveja. Há mais malte que lúpulo no conjunto, isto se consideramos que ela é americana. Mas é possível sentir um bom amargor do lúpulo, além de uma sensação picante, terrosa, típica de algumas ales inglesas e que deriva das variedades de lúpulos ingleses utilizados nelas. Acredito que usem variedades inglesas nesta cerveja também. Na boca podemos sentir muito caramelo, toffee, uma leve torrefação e frutos secos.
Boont em Bootling significa o centro focal do Anderson Valley.


Hop Ottin India Pale Ale - India Pale Ale, 7%ABV, garrafa 355ml.

Cor: Cobre, levíssima turbidez.
Espuma: Boa formação e alta duração de espuma, de cor bege/marfim, ótima consistência, forma picos e deixa muitas marcas no copo.
Aroma: Malte, caramelo, toffee, leve torrefação, leve diacetil, lúpulo, frutado (grapefruit, laranja), cítrico, picante (terroso), pinheiros.
Paladar: Malte, doce, caramelo, toffee, leve diacetil, lúpulo, frutado (grapefruit, laranja), cítrico, picante (terroso), pinheiros, álcool, corpo médio, textura cremosa, amargor final de boa intensidade e duração.

Ótima cerveja. Antes de provar eu esperava mais uma bomba de lúpulo, com características marcantes de lúpulos americanos. Ledo engano! Esta cerveja lembra muito as IPA inglesas, pois além de ter uma lupulagem menos assertiva e mais controlada, o que dá um grande equilíbrio com as notas maltadas e carameladas, a variedade de lúpulo mais forte nela é picante e terrosa, típica das inglesas. Podemos sentir uma certa complexidade vinda dos lúpulos, mas não é tão cítrica e frutada como outras IPA americanas. Segundo dados colhidos na internet, o lúpulo utilizado aqui é o Columbus. Pude sentir um pouco de diacetil na cerveja, mas não incomodou devido à boa complexidade da cerveja, além de que contribuiu para deixar a cerveja mais cremosa.
Hop Ottin em Boontling significa lúpulos trabalhadores. 


Boont ESB -  Extra Special Bitter, Ale, 6.8%ABV, garrafa 355ml.

Cor: Ambar escura/ cobre, leve turbidez.
Espuma: Boa formação e duração, cor marfim, bem consistente, deixa muitas marcas no copo.
Aroma: Malte, caramelo, toffee, adocicado, lúpulo, picante (terroso), leve cítrico, leve frutado.
Paladar: Malte, doce, caramelo, toffee, lúpulo, picante (terroso), leve frutado, leve cítrico, leve álcool, bom amargor final de grande intensidade e boa duração, corpo médio, boa textura, cremosa.

Boa cerveja. Possui um amargor bem pronunciado, o que é até esperado para uma cerveja americana, mas aqui a inspiração é muito mais para uma típica Extra Special Bitter inglesa. Possui um grande equilíbrio entre malte e lúpulo, com notas maltadas de caramelo e toffee e o lúpulo predominantemente de características picantes e terrosas, além de um pouquinho cítricas em segundo plano. O álcool é perceptível mas está bem integrado ao conjunto.


Barney Flats Oatmeal Stout - Oatmeal Stout, Ale, % ABV, garrafa 355ml.

Cor: Preta opaca.
Espuma: Boa formação e média duração, forma um belo efeito cascata, cor bege escura.
Aroma: Malte, adocicado, torrefação, café, chocolate, leve lúpulo.
Paladar: Malte, doce, torrefação, café, chocolate, acidez, doce, amargor baixo, final adocicado e  intensamente torrado, corpo médio/alto, textura densa, cremosa, levemente seca.

Boa cerveja. Cremosa, densa e rica em sabor, mas não complexa. Na verdade a drinkability é bem alta. O malte aqui é o que mais aparece, com notas de torrefação, café e principalmente chocolate. O lúpulo aparece de forma muito tímida. Não sei o quanto o uso de aveia realmente fez diferença na cremosidade da cerveja, mas ela é bem cremosa!
Barney Flats em Boontling é uma floresta bem preservada que fica a oeste da cervejaria.

28 abril 2010

Corsendonk



Corsendonk é o nome de uma linha de cervejas de Abadia fabricadas na Bélgica. O nome Corsendonk veio do Priorado de Corsendonk, localizado na cidade de Oud-Turnhout, na provícia da Antuérpia, no norte da Bélgica.

O Priorado foi fundado no ano de 1398, teve suas atividades encerradas em 1784, mas foi conhecido por ter uma maltaria e uma cervejaria. Em 1789, durante a Revolução Francesa, as propriedades do Priorado de Corsendonk foram confiscadas e colocadas à leilão.

Somente durante o século XIX a atividade de fabricação de cerveja foi retomada por Florentinus Keersmaekers com a cerveja chamada Pater. Em 1790 o Priorado foi restaurado e transformado em um centro de conferências e seminários. Em 1982 a marca Corsendonk foi revitalizada e a produção da cerveja foi terceirizada para a cervejaria Du Bocq.

Hoje podemos encontrar duas variedades da cerveja Corsendonk no Brasil: a Agnus Tripel e a Pater Dubbel. Aliás os nomes Agnus e Pater têm conotação religiosa e signifiam cordeiro e pai em latim. A logomarca da Corsendonk também possui grande conotação religiosa e reproduz um  tipo de vitral, típico de igrejas católicas. As garrafas são bonitas e possuem o rótulo serigrafado com somente uma gravatinha diferenciando as duas versões.


Corsendonk Agnus Tripel - Belgian Tripel, Ale, 7.5%ABV, garrafa 330ml.

Cor: Dourada intensa, levemente turva.
Espuma: Alta formação e média duração, cor branca, bem consistente, bolhas bem pequenas, deixa muitas marcas no copo.
Aroma: Malte, doce, frutado (laranja), cítrico, picante, lúpulo, condimentado, leve álcool.
Paladar: Malte, leve adocidado, frutado (laranja), cítrico, picante, condimentado, leca álcool, amargor final, bom  corpo, alta carbonatação.

Boa cerveja. Não é a melhor Tripel que já provei, mas todos os aspectos que devem ser esperados estão lá: fruatada, cítrica, picante, condimentada e alcoólica. Destaque para a aparência com uma espuma bem consistente, belíssima, e um "belgian lace" destacado na taça.


Corsendonk Pater Dubbel - Belgian Dubbel, Ale, 7.5%ABV, garrafa 330ml.

Cor: Marrom escura, límpida.
Espuma: Boa formação, média duração, cor bege.
Aroma: Malte, leve adocicado, torrefação, frutado (ameixa, passas), fenólico, picante.
Paladar: Mlate, doce, torrefação, frutado (ameixa, passas), fenólico, leve álcool, leve amargor, sensação final picante, carbonatação elevada.

Boa cerveja. Destaque para a torrefação junto com a sensação fenólica, picante e alcoólica.

25 abril 2010

Fuller's India Pale Ale



Para quem procura uma boa cerveja inglesa hoje no Brasil, sem dúvida alguma as melhores opções estão nas produções da Fuller's. O histórico da cervejaria Fuller's já foi postado aqui em outro momento, assim como meus comentários sobre várias cervejas produzidas por eles e disponíveis em nosso país: London Pride, Golden Pride, London Porter, ESB, 1845 e Honey Dew. Até hoje não me decepcionei com nenhuma dessas cervejas, a não ser pela Honey Dew que é uma produção mais leve e sem grandes destaques, propositadamente lançada pela cervejaria para competir com o crescente interesse do consumidor britânico por cervejas Lagers.

Hoje coloco aqui minhas impressões sobre a India Pale Ale, a qual estava devendo aos leitores. Muitos já sabem dessa história, mas como recebemos também leitores iniciantes na cultura da boa cerveja acredito que seja válido reforçar que a India Pale Ale é um estilo de cerveja típico da Inglaterra. O surgimento desse estilo é atribuído a necessidade de transportar cervejas em navios durante o século XVIII, época que a Índia era uma colônia inglesa. Segundo relatos, existia a necessidade de fabricar uma cerveja que pudesse ser transportada nas longas  viagens de 4 meses entre a Inglaterra e a Índia sem que chegasse estragada. Cervejas com maior teor alcoólico e maior presença de lúpulo conseguiam se manter mais estáveis durante as viagens, já que tanto o álcool como o lúpulo possuem propriedades conservantes. A India Pale Ale foi portanto uma adaptação das tradicionais English Pale Ales (ales pálidas) que, devido ao maior  teor alcoólico e à maior proporção de lúpulo, adquiriram mais corpo e amargor. Para os que estão mais adiantados no tema, eu recomendo a leitura do site criado pela cervejaria Meantime sobre a origem das IPA e do artigo no blog Zithophile acerca de uma polêmica sobre o criador do estilo, George Hodgson. No mesmo blog Zithophile ainda podemos ler outro artigo onde o autor tenta embasar tudo que afirma.


Fuller's India Pale Ale - India Pale Ale, 5.3%ABV, garrafa 500ml.

Cor: Âmbar, límpida.
Espuma: Média formação e duração, cor marfim, boa consistência, deixa marcas pelo copo.
Aroma: Lúpulo, malte, adocicado, caramelo, picante, cítrico, frutado (laranja).
Paladar: Malte, doce, caramelo, lúpulo, picante, cítrico, frutado (laranja). bom amargor final, de boa intensidade e duração, corpo médio, boa textura, carbonatação média.

Ótima cerveja. Muito malte e muito lúpulo no conjunto bem balanceado e equilibrado. Tem como destaque um amargor intenso e duradouro ao final de cada gole. O lúpulo aparece com toques picantes, típicos de variedades inglesas, e cítricos/ frutados, lembrando laranjas.

13 abril 2010

Samuel Smith


A cervejaria Samuel Smith fica na cidade de Tadcaster, no condado de North Yorkshire, no Norte da Inglaterra. A cervejaria foi fundada em 1847 mas funciona até hoje no que é considerada a mais antiga cervejaria em Yorkshire. A cervejaria continua independente, ou seja, não foi comprada por nenhum grande grupo cervejeiro, a tendência atual do mundo globalizado.

Também é muito antigo o método de fermentação utilizado na cervejaria. Há 200 anos o Yorkshire Square já era muito utilizado e consistia em tanques quadrados de pedra, com 2 metros de profundidade e abertos onde a cerveja era fermentada. Como as cervejas produzidas no Reino Unido são tradicionalmente de fermentação alta (top fermentation, em inglês, quer dizer fermentação no topo e não alta), ocorre um acúmulo de levedura que parece uma camada de espuma no topo do tanque. Durante o início do processo esta camada de levedura é forçada a se misturar novamente com o líquido, o que torna o trabalho da levedura mais lento, preservando o corpo da cerveja e melhorando a absorção de gás carbônico. Hoje os tanques são  de aço inox pela facilidade de limpeza, mas o método ainda é preservado e é tido como responsável pela cremosidade da cerveja e da espuma. Pouquíssimas cervejarias ainda utilizam o método no Reino Unido. Outra delas é a Black Sheep, também de Yorkshire.

A Samuel Smith produz uma grande variedade de cervejas de ótima qualidade. Infelizmente elas ainda não chegaram no Brasil, mas podem ser encontradas com certa facilidade em nosso vizinho, a Argentina. Quem for passar alguns dias em Buenos Aires não pode deixar de procurar por essas cervejas.

Trouxe comigo em minha mala três versões desta cervejaria inglesa. Divido aqui com vocês a  minha experiência.


Samuel Smith's Old Brewery Pale Ale - English Pale Ale, 5%ABV, garrafa 355ml.

Cor: Cobre, límpida.
Espuma: Boa formação, média duração, cor bege, de bolhas pequenas, bem consistente.
Aroma: Malte, frutado, lúpulo (pinheiro, grama), caramelo, mel.
Paladar: Malte, lúpulo, caramelo, mel, bom amargor final, de boa intensidade e longa duração, corpo médio/baixo.

Boa Pale Ale com ótimo aroma de lúpulo, lembrando pinheiro e grama. No sabor o lúpulo também aparece mas está bem balanceado coma  presença do malte. Assim como toda English Pale Ale, esta também tem um perfil relativamente leve e de alto drinkability mas com muita personalidade, sabor e aroma.


Samuel Smith's Nut Brown Ale - English Brown Ale, 5%ABV, garrafa 355ml.

Cor: Cobre escura/ marrom, límpida.
Espuma: Boa formação, média duração, cor bege amarelada, de bolhas pequenas, boa consistância.
Aroma: Malte, adocicado, caramelo, toffee, frutos secos (castanhas), leve lúpulo.
Paladar: Malte, doce, caramelo, toffee, frutos secos (castanhas), bom amargor final, de média intensidade e duração, bom corpo.

Boa cerveja. O malte predomina no conjunto com notas de caramelo e toffee. A presença de frutos secos pode ser bem noatada no aroma e no sabor. Bom conjunto.


Samuel Smith's Imperial Stout - Imperial Stout, Ale, 7%ABV, garrafa 355ml.

Cor: Preta opaca.
Espuma: Boa formação, média duração, cor bege escura, de bolhas bempequenas, boa consistância, deixa marcas no copo.
Aroma: Malte, torrefação, chocolate, café, leve frutado (uva passa).
Paladar: Malte, torrefação, chocolate amargo, café, leve frutado (uva passa), leve acidez (torrefação), bom amargor, sensação final de amargor e torrefação, bom corpo, textura densa, levemente seca.

Ótima cerveja. Predomínio das sensações proporcionadas pela torrefação, lembrando muito chocolate amargo e café. A torrefação também contribui para a sensação de amargor e uma leve acidez no sabor que não chega a incomodar. A textura é bem densa e preenche a boca. Conjunto muito harmonioso, complexo e delicioso. Esta é até agora a melhor Imperial Stout que já provei. As outras não eram das mais conhecidas e por isso fico muito curioso com outras do estilo produzidas por cervejarias consagradas e que reconhecidamente fabriquem grandes cervejas. Deve combinar muito com sobremesas à base de chocolate, mas sozinha ela também é espetacular. Esta é uma daquelas cervejas para beber com muita calma, saboreando. Agradeço ao colega Eduardo Deleuze por me proporcionar a oportunidade de prová-la.

08 abril 2010

Para quem gosta de cerveja...


Recebei uma menssagem do colega blogueiro Patrick Stephanou e repasso aqui para todos aqueles interessados em artigos colecionáveis relacionados ao nosso maravilhoso mundo da cerveja, como bolachas, latinhas, tampinhas e afins.

O que?
10º Encontro de Colecionáveis Cervejeiros
 
Resumo:
Feira de itens do mundo da cerveja.

 Quando?
Sábado, 10 de Abril (de 2010), das 9 às 18h – aberto ao público

*Sexta e Domingo, (09 e 11 de Abril) segue uma programação para inscritos nos evento, contendo coquetel, leilão, palestra, e almoço de congraçamento.

 Onde?
Mercado Público (Central de Porto Alegre)

 Realização:
TCHERVEJA (clube cervejeiro gaúcho)

 Apoio:
Prefeitura Municipal de Porto Alegre e
Mercado Público/SMIC

Informações:

03 abril 2010

Gouden Carolus Easter Beer - A cerveja de Páscoa

 

Neste último mês de dezembro eu fiz uma série de posts sobre cervejas que celebram o Natal. Exite uma grande tradição de fabricar cervejas festivas em alguns países, notadamente a Bélgica, provavelmente pela grande criatividade cervejeira dos habitantes deste país. Não temos no Brasil uma grande tradição de fabricar cervejas festivas, mas nestes últimos anos já podíamos encontrar algumas cervejas natalinas fabricadas por aqui além de uma pequena variedade de rótulos importados, o que permitiu a realização desta tarefa.

Para este feriado de Páscoa eu tive a idéia de comentar sobre cervejas que celebrem a data. Infelizmente não existe nenhuma receita fabricada no Brasil e dentre os rótulos de outros países somente encontramos a Gouden Carolus Easter Beer (cerveja de Páscoa em inglês). As cervejas da Het Anker já foram assunto de vários posts neste blog, incluindo suas Cuvée Van de Keizer Blauw e Rood. O motivo disso é realmente a grande variedade de receitas e principalmente a qualidade que podemos desfrutar ao apreciar estas cervejas.

A Gouden Carolus Easter Beer é fabricada todo ano no período da Páscoa. A receita leva três tipos de ervas, o que realmente deixa um caráter bastante condimentado à cerveja. Ao pesquisar sobre esta cerveja pude ver existe uma variação na receita dependendo do ano de produção. Até o ano de 2006 esta era uma cerveja escura, uma Belgian Dark Strong Ale. De 2007 até provavelmente 2009 a receita foi modificada para se obter uma cerveja dourada ou âmbar clara, uma Belgian Golden Strong Ale, que lembrava uma Tripel. Ao que parece, a partir de 2009 a receita foi novamente modificada. A Gouden Carolus Easter foi novamente produzida como uma Dark Strong Ale. Pelos meus cálculos a partir da data de validade desta cerveja que pude degustar (vencimento para fevereiro de 2012), acredito que esta seja uma das primeiras com a nova receita, já que ela tem aproximadamente 3 anos de validade após a fabricação.


Gouden Carolus Easter Beer - Belgian Dark Strong Ale, 10.5%ABV, garrafa 750ml.

Cor: Cobre escura/marrom, levemente turva.
Espuma: Boa formação e duração, cor bege escura, bolhas pequenas, boa consistência, deixa marcas pelo copo.
Aroma: Malte, adocicado, fenólico, condimentado, cravo, picante, frutado (passas), álcool.
Paladar: Malte, doce, fenólico, condimentado, cravo, picante, frutado (passas), álcool, final levemente amargo, picante e alcoólico, bom corpo.

Boa cerveja. Muito fenólica. Ela é picante e condimentada, lembrando muito cravo. O álcool está bem presente no conjunto e esquenta a garganta ao final de cada gole. A cervejaria recomenda a degustação em torno de 7° C. Eu devo concordar com esta recomendação pois acredito que em temperaturas maiores ela pode ficar desequilibrada na questão do caráter fenólico e alcoólico, os quais poderiam ficar excessivos, prejudicando o drinkability.

Related Posts with Thumbnails